A completa entrega ao serviço de missões

Tiramos esta foto em 2006 na estrada entre a fronteira com Brasil e Santa Cruz de la Sierra, uns 250 Km dentro de Bolívia. Eu sempre gostei muito desta foto, pois representa os primeiros momentos em Bolívia.

Eu e Mina em 2006 estávamos pisando uma terra totalmente nova, estávamos descobrindo o novo campo de missões  que o Senhor nos havia colocado depois de 10 anos trabalhando no Paraguai.

Parece exagero, pois tudo era novo. A fisionomia do povo boliviano bem diferente dos paraguaios, as cores da bandeira no mastro, a comida, o espanhol com o acento quechua ou aymara e posso dizer que tudo realmente me impactava.

E quando eu falo de ser impactado por uma bandeira diferente parece novamente exagero, mas não é. Cresci vendo nossa bandeira brasileira nos mastros e por 10 anos no Paraguai aprendi a respeitar a “alvi roja” representando o povo paraguaio que também tanto amo.

Mas, um dia me vi debaixo de um mastro olhando para a bandeira tricolor de Bolívia e tentando me achar no meio daquelas cores. Foi muito estranho para mim. Do meu coração, de forma espontânea saiu uma oração: “Deus, Tu me enviaste aqui, mas eu não amo este povo”. E na mesma hora Aquele que sabe de todas as coisas falou ao meu coração: “Eu vou te ensinar a amar este povo” 

Mas, voltando a foto acima, você quer saber um pouco mais sobre o que aconteceu depois tirarmos esta foto? Bem, para tirar a foto nós colocamos a câmera em cima do nosso carro, pois não havia mais ninguém conosco e não tínhamos um tripé. Outro detalhe é que Mina estava grávida, aproximadamente, dois meses de Deborah e nós não sabíamos. 

Depois que saímos deste lugar lindo que você pode ver na foto, alguns quilômetros depois, o motor do nosso veículo fundiu. Eu havia batido o mortor do carro em uma pedra pela estrada e derramou o óleo do motor e terminou fundindo. Era domingo e não passava ninguém e nós tínhamos apenas um pouco de água, alguns biscoitos e a noite estava chegando; não vou nem entrar no detalhe do frio da noite.

A região em que ficamos era de montanhas e havia mata. Busquei sinal de fumaça para ver se havia alguma casa ao redor, mas não vi nenhum sinal; e nem mesmo carro passava naquela estrada.

Mina começou a se preocupar e já queria chorar. Realmente era de deixar um desesperado. Mas, lembramos QUEM nos enviou a Bolívia e naquele lugar nós fizemos uma oração ali dentro do carro e clamamos por misericórdia.

Pedimos ao Senhor que enviasse alguém para nos tirar daquele lugar. Depois de várias horas sem passar ninguém pela estrada nós avistamos um veículo o qual parou e nos levou à cidade de San Jose de Chiquitos, aproximadamente 250 Km da fronteira do Brasil.

Quando chegamos à cidade já era escuro.  Procuramos um lugar para jantar e depois buscamos um alojamento para dormir. No outro dia observamos a cidade com uma estrutura bem diferente do que eu havia visto. A impressão era que entramos em alguma foto bem antiga em preto e branco, mas que diante dos nossos olhos tudo era bem colorido.

As casas, as ruas, as colunas das varandas de madeira rústica  e tudo apontava ao estilo espanhol. A cidade de San José é conhecida como Santa Cruz de la Sierra, La Vieja (a velha), pois em San José de Chiquitos nasceu a cidade de Santa Cruz de la Sierra.

Caminhamos pela cidade e perguntamos por uma igreja, mas todos apontavam a igreja católica no centro da cidade que data a construção do século XVIII. Novamente perguntei por uma igreja, mas acrescentei Igreja Evangélica e novamente as pessoas não sabiam responder. 

Em minha busca por uma Igreja Evangélica aprendi duas coisas: Primeiro que o povo não conhece os evangélicos por evangélicos, mas “cristianos”. Então, eu deveria perguntar por “Iglesia Cristiana”. A segunda coisa que aprendi é que encontramos uma igreja bem apagada na região onde as pessoas nem mesmo sabiam que havia igreja. Deu muita pena ver tudo isso.  

Mas, chegou o momento em que encontramos uma “Iglesia Cristiana”. A casa pastoral era bem pequena e eu e Mina dormimos dentro do templo em um lugar, acredito eu, que seria a secretaria. A igreja estava em construção e havia muita terra pra todo lado.

O pior é que o tempo mudou e fez frio. Bem à nossa frente havia uma janela aberta e entrava vento. O que nos consolava era saber que não estávamos dormindo no carro à beira do asfalto.

E falando do carro, ele ficou abandonado na estrada, pois realmente eu não tinha o que fazer. Para “ajudar” um irmão veio e me disse que provavelmente o povo da região roubariam as rodas, parte do motor, se não roubassem o carro todo.  

Bem, vou adiantar vários detalhes, como os duros momentos de trazer o carro à cidade,  nossa volta de ônibus de San Jose de Chiquitos à fronteira com Brasil para comprar as peças do motor e, para finalizar, quando retornávamos ao Brasil já com o veículo pronto para viajar nós ficamos trancados em uma paralisação na estrada. Esta foi minha primeira paralisação em Bolívia.

Nós somente queríamos viajar uns 250 Km e chegar novamente na cidade de Corumbá no Mato Grosso do Sul, mas não podíamos passar por causa da paralisação. Ficamos ali tomando tereré, comendo alguns biscoitos e as horas passavam. Até que encontramos um brasileiro no ônibus e nos disse que era melhor retornar a San José de Chiquitos, pois não havia previsão de suspender a Paralisação.

Retornamos a San José de Chiquitos e tivemos que esperar mais dois dias. Eu fiquei pensando nas pessoas nos ônibus, nas famílias, nas crianças, nas pessoas idosas. Perguntei a um irmão da igreja como ficava a situação do povo e ele me falou que quem não tem dinheiro fica com fome mesmo. 

Olha, para mim esta primeira paralisação foi marcante!


O QUE APRENDEMOS COM TUDO ISSO
Por que estou contando tudo isso? Eu não tinha intenção nenhuma de viver essas “aventuras”. Tudo que eu queria era chegar em Santa Cruz de la Sierra, procurar uma casa para morar e começar o trabalho missionário.

No incidente gastamos mais que planejávamos e quero lembrar que não era dinheiro de oferta, pois não tínhamos igrejas e ninguém nos ajudando. Até hoje encontro gente dizendo que fui com ajuda de igreja tal, ou o pastor Fulano me ajudou, mas a realidade é que não recebemos ofertas de ninguém, nenhuma agencia de missões, mas vendemos todos os nossos bens para fazer missões em Bolívia. 

Para comprar as peças para o carro que haviam danificadas eu vendi minha geladeira, maquina de lavar roupa e mais algumas coisas que tínhamos. Agora para deixar o carro rodando ficamos sem geladeira, fogão e máquina de lavar roupas. 

Quando voltamos à fronteira eu enviei mensagem aos amigos, irmãos da igreja, obreiros, parentes e relatei o que havia acontecido e roguei suas orações. E o que fizeram? Tiraram uma oferta para nos ajudar? Claro que não. Choveu críticas, palavras como: “Está fora da direção de Deus e por isso acontece tudo isso.” 

E você acha que eu me abati com aquelas palavras? Com toda franqueza, nós não viemos à Bolívia para receber elogios e obter aprovação de alguém. Nós viemos a esta nação porque ouvimos a voz do Senhor Jesus nos mandando vir à Bolívia. O Senhor disse: “Você vai para Bolívia”. Eu respondi: “Amem”.

Não estou escrevendo essas coisas como que reclamando das pessoas. Com toda certeza, não! A questão é que eu estava vendo algo que eles não enxergavam. Deus havia me dado a Palavra, havia dado uma visão e eles não tinham nada disso. 

Eu poderia continuar contando muitas outras situações difíceis em que passamos nesse primeiro período em nosso novo campo missionário e da bela foto que você vê logo acima. Lembro de alguem dizer que até se emociona vendo esta foto, pois marcou nossa ida a Bolívia, mas aqui quero deixar a lição que missões não se faz com belas fotos, emoções, mas convicção do chamado. Se você não tem um chamado de Deus você ficará no meio do caminho.

Quando Deus te Chama para fazer algo o primeiro que ELE faz é gerar a convicção em você que você está indo porque ELE mesmo está te enviando. Outra convicção gerada em seu coração é que você está ali não por dinheiro, fama ou reconhecimento. Fique certo que isso será muito bem trabalhado em você pelo próprio Deus, caso o Senhor realmente tenha um propósito em sua vida.

Eu vou colocar um vídeo abaixo onde eu falo um pouco sobre a entrega ao serviço de missões.  Vou contar outros testemunhos e sinceramente meu desejo é que você seja edificado pelo Senhor com tudo isso; mas que fique firme em seu coração que fazer missões não é viver uma vida de emoção, mas uma verdadeira entrega Àquele que te chamou.


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Um comentário em “A completa entrega ao serviço de missões”

  1. Boa noite A paz do Senhor Esse testemunho é muito edificante, a cada dia arde meu coração a vontade de ir ao campo. Estamos nesses dias preparando uma cruzada , perto da cidade que moro. Amo fazer isso , é doloroso recebemos muitos nãos,tem muitas barreiras . Mas é quando vejo uma alma se rendendo ao Senhor valeu a pena . Eu estava muito parada a quase 8 anos mas para glória de Deus estou levantando. Foi muito bom ler o seu depoimento seu testemunho. Que a graça do Senhor Jesus Cristo esteja sempre com vocês. Dios te bendiga

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