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Missões nas Alturas: Realidade, Desafios e o Poder do Evangelho nas Regiões Andinas

Entramos em um micro-ônibus que faz viagens regulares à região de fronteira entre Bolívia e Peru. O céu estava azul, o sol brilhava intensamente, mas o frio era cortante. O rosto das crianças estava marcado por manchas avermelhadas causadas pela exposição constante ao sol e ao vento gelado. Essa combinação climática castiga a pele com dureza.

As casas ao longo da estrada e das montanhas andinas são feitas de adobe — um tijolo rústico de barro misturado com um capim resistente encontrado nas altitudes dos Andes. Por toda parte vemos manadas de llamas, animais típicos da região andina. Além da carne, sua pele é usada na confecção de roupas e cobertas. Em geral, são as mulheres e crianças que cuidam dos rebanhos. As cercas dos campos são construídas com as pedras que os próprios moradores retiram da terra para evitar que machuquem os animais. Essas pedras são empilhadas com precisão, formando cercas e pequenas construções para abrigo do sol.

Peniel Dourado em Potosi, Bolívia

Pouco se vê de plantações, pois o terreno é desértico. No entanto, nas encostas das montanhas, onde há umidade ou presença de pequenos riachos, os moradores irrigam seus cultivos. No verão, é preciso aproveitar bem essa água, pois no inverno os riachos costumam congelar. A variedade de produtos agrícolas é limitada pelo frio e pela altitude, mas a batata é cultivada em quase todo campo. Não nos surpreende, portanto, que nas feiras a batata inglesa — que ali é chamada de batata andina — seja vendida em abundância. Muitos afirmam que foi justamente naquela região que a cultura da batata teve início.

Eu realmente me impressiono com a forma como esse povo vive em um deserto nas alturas, enfrentando um clima extremamente rigoroso. Mas olhar apenas para a beleza da natureza, como o Lago Titicaca — localizado a 3.820 metros de altitude — ou o majestoso Illimani, cartão-postal da cidade de La Paz, é se encantar com a criação e esquecer o Criador.

O Senhor criou o Illimani para que pudéssemos admirar e louvar Sua grandeza (Salmos 19:1). Tenho uma bela foto daquela montanha de mais de 6.000 metros de altura, mas meu coração se volta para algo maior: aos pés daquele gigante, vivem mais de um milhão de pessoas pelas quais Jesus deu sua vida na cruz (João 3:16).

Na região do altiplano de Bolívia

Voltando à realidade do campo, você já parou para pensar na necessidade dessas regiões? Quantas famílias vivem isoladas à beira da estrada ou no sopé das montanhas? Certa vez, viajando com um missionário, conversávamos sobre como alcançar essas vidas. Passamos por vilas, povoados e pensávamos nas muitas pessoas que moram no fim das montanhas. Quem irá por elas?

Muitos desses moradores vão à cidade apenas para comprar e vender e depois retornam aos seus povoados remotos. Disse ao missionário: “Não temos veículo nem pessoal para atender essa região”. Mesmo assim, Deus nos direcionou a levar Sua Palavra às feiras e mercados, pregando com megafones e distribuindo em abundância folhetos bíblicos, em espanhol, quéchua e aymara. Este tem sido nosso foco. Nosso compromisso não está preso ao método, mas sim à mensagem (1 Coríntios 9:22-23).

Sempre me perguntam: “Qual sua maior necessidade?” Poderia citar dinheiro, veículo, mais megafones — e a lista continuaria. Mas o que realmente falta são obreiros. Se tivermos homens e mulheres cheios do Espírito Santo e com amor pelas almas, podemos fazer muito, mesmo com poucos recursos (Lucas 10:2). Se não há carro, usamos ônibus, carona ou bicicleta. O essencial é cumprir a missão.

Próximo a cidade de Cochabamba, Bolívia

No Paraguai, atendíamos uma aldeia indígena chamada Pysyry, a 70 km de Pedro Juan Caballero. O acesso era precário. Usávamos um Chevette velho, levávamos bicicletas no porta-malas e todo o material da escola. A 20 km da aldeia, deixávamos o carro e seguíamos pedalando. Um dia, sob chuva forte, o barro impedia as rodas de girarem.

Chegamos à pequena igreja de sapé à noite, molhados e famintos. Enquanto os irmãos colhiam mandioca para nos alimentar, fomos ao riacho tomar banho. A água parecia limpa, mas ao sair, estávamos cobertos de lama. Mesmo assim, cumprimos a missão. Quando há visão e disposição, a obra avança (2 Coríntios 12:15).

Voltando à fronteira Bolívia-Peru, vi uma família ajoelhada sobre um monte, voltada para o sol, com as mãos erguidas. Eles buscavam a bênção do astro, pois acreditam em sua divindade. Em outras regiões, adoram a “Pacha Mama”, a mãe-terra. Muitos vivem imersos no paganismo, presos à cultura ancestral. Em cidades como Santa Cruz de la Sierra, com mais de dois milhões de habitantes, ainda se encontra quem não fale espanhol, apenas a língua indígena.

O missionário precisa respeitar a cultura local, mas jamais negociar os princípios da fé cristã. Jesus foi claro ao declarar: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (João 14:6). Isso não é intolerância — é fidelidade. Eu chamo de “Radicalismo Cristão”: manter-se firme no único caminho que conduz à vida eterna (Atos 4:12).

Onde estão os que vão resgatar essas vidas? Onde estão as igrejas dispostas a enviar os mensageiros da verdade? Estamos em meio a uma guerra espiritual, mas Satanás tem atacado a retaguarda — falta manutenção, suprimento e obreiros. Ainda assim, a Obra não falhará, pois ela é do Senhor (Mateus 16:18), e não de líderes comprometidos apenas com conforto e visibilidade.

Nosso trabalho é simples: pregamos nas feiras com megafones, em espanhol, quéchua, aymara ou guarani — sempre que encontramos alguém que domine a língua local. O impacto é visível. Em países como Bolívia, Peru e Paraguai, é raro ver cultos ao ar livre como no Brasil.

Quando chegamos a Santa Cruz, não víamos ninguém pregando nas feiras. Hoje, isso mudou. Com três ou quatro megafones, dividimos os evangelistas em pontos estratégicos, proclamando a Palavra e distribuindo folhetos. O objetivo, no entanto, não é causar alarde, mas anunciar com ousadia o evangelho de Cristo (Romanos 1:16).

Trabalhamos em parceria com as igrejas locais. Enviamos material evangelístico, incentivamos os irmãos a colocarem seus carimbos e se envolverem no trabalho. Queremos mais do que realizar eventos: desejamos plantar no coração dos irmãos locais um fervor missionário. Nem todos farão o que fazemos, mas se cada um fizer algo, já teremos cumprido um papel crucial na expansão do Reino.

Amado, encerro com as palavras de Jesus: “A seara é realmente grande, mas poucos os ceifeiros” (Mateus 9:37). Oramos para que o Senhor levante obreiros, tanto locais quanto enviados de longe. Sabemos que os tempos são difíceis, mas ainda há aqueles que mantêm o coração puro diante do Senhor e estão dispostos a ir onde for necessário (Isaías 6:8).

Peniel N Dourado