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Como Não Se Perder no Campo Missionário

Podemos nos perder em meio à missão que o Senhor nos confiou, a ponto de olhar para o céu e não ver nem o sol nem as estrelas, e caminhar à deriva sem saber para onde ir. Certa vez, o apóstolo Paulo viveu uma situação parecida. O evangelista Lucas escreveu em Atos dos Apóstolos:
“E, não aparecendo, havia já muitos dias, nem sol nem estrelas, e caindo sobre nós uma não pequena tempestade, fugiu-nos toda a esperança de nos salvarmos” (Atos 27:20).

Não seria essa a realidade de muitos missionários hoje? Ignorar as tempestades espirituais e as dificuldades do ministério é imprudente, pois, assim como um barco é construído para suportar as adversidades do mar, devemos estar preparados para enfrentar as dificuldades no campo missionário. As tempestades, por vezes, nos levam a perder o rumo e a sentir que estamos à deriva.

Pastor Peniel e Mina

Se você está no campo missionário, é importante tomar cuidado. Não basta apenas Deus ter te enviado; você pode, sim, se perder. Por exemplo, José recebeu a ordem de seu pai para verificar a situação de seus irmãos, mas “andava errante pelo campo” (Gênesis 37:15). O que pode fazer um missionário se desviar da missão que Deus confiou? Existem muitos motivos.

Aqui, em Santa Cruz de La Sierra, noto que a facilidade para os brasileiros cursarem medicina atrai muitos missionários, homens e mulheres que vieram com o coração focado na salvação das almas, mas se perdem em meio à busca por um diploma barato.

Em poucos anos, já vi missionários voltando ao Brasil porque a faculdade passou a ser a prioridade, e não a obra do Senhor. Outros continuam, porém já sem tempo para o trabalho missionário, que fica em segundo plano. Essa prioridade invertida tem causado problemas conjugais e familiares, com ministérios desfeitos e casamentos arruinados.

Pastor Peniel, Mina e Deborah yuiko

Alguém pode me perguntar: “Então você é contra que o missionário estude?” De modo algum. Este é apenas um exemplo de algo que acontece aqui com frequência. Eu defendo que o que Deus nos confiou deve ter primazia (Mateus 6:33). Já encontrei missionários perdidos no campo por diversas razões: distância da família e da igreja, solidão, problemas financeiros, falta de supervisão pastoral, conflitos ministeriais, e outros. A lista poderia ser maior. Mas o certo é que, se você é missionário, foi chamado pelo Senhor, e ELE mesmo lhe deu uma missão — não a perca de vista.

As fotos em murais das igrejas, com bandeiras estrangeiras e imagens de trabalhos evangelísticos e sociais, muitas vezes emocionam a igreja local. Quantas vezes olhei essas fotos e me emocionei com esses heróis de nossos dias, que cruzam fronteiras para buscar as almas perdidas. No entanto, por trás dessas imagens bonitas, há muitos missionários perdidos, à deriva, que não sabem para onde ir ou o que fazer.

Existe uma orientação clara para quem vai ao campo:
“Filha minha, não vás colher em outro campo, nem tampouco passes daqui; porém aqui ficarás” (Rute 2:8).

Esse texto fala da situação de Rute, viúva, que tinha o direito pela Lei de colher nos campos o que sobrava, mas recebeu uma orientação específica para permanecer fiel a um lugar. Mais tarde, a sogra Noemi reafirmou essa sabedoria:
“E disse Noemi a sua nora: Melhor é, filha minha, que saias com as suas moças, para que noutro campo não te encontrem” (Rute 2:22).

Material evangelístico chegando em Bolívia (2012)

Na minha juventude, tomei a decisão firme de buscar ao Senhor e valorizar apenas aquilo que me edificava. Tudo que não trazia edificação eu descartava — essa foi uma orientação importante para minha vida. Quando tinha 18 anos, Deus me falou fortemente sobre trabalhar na obra, e comecei a traçar minhas decisões nesse sentido. Muitas oportunidades surgiram depois, mas descartei todas que não alinhavam com a missão.

Ao buscar esposa, procurava aquelas com coração para a obra, e evitava as que tinham sonhos distantes da missão. Após casar, eu e minha esposa Mina decidimos dedicar nossas vidas ao Reino de Deus. Nosso alvo não é acumular bens, carro ou casa — embora creiamos que Deus pode nos dar tudo isso —, mas a obra do Senhor é nossa primazia. Muitas vezes surgem oportunidades que tentam nos afastar desse foco, mas nós temos escolhido permanecer firmes.

Quer evitar ser um missionário perdido no campo que Deus lhe deu? Então não perca a missão que ELE confiou a você. Não é sábio agir movido apenas pelas emoções, pois:
“Com a sabedoria se edifica a casa, e com o entendimento ela se estabelece” (Provérbios 24:3).

Quando Israel caminhava pelo deserto, não andava sem direção, mas sob ordem e liderança. No momento de atravessar o rio Jordão, os oficiais deram instruções precisas:
“Quando virdes a arca da aliança do SENHOR vosso Deus, e que os sacerdotes levitas a levam, partireis vós também do vosso lugar, e seguireis. Haja contudo, entre vós e ela, uma distância de dois mil côvados; e não vos chegueis a ela, para que saibais o caminho pelo qual haveis de ir; porquanto por este caminho nunca passastes antes” (Josué 3:3-4).

Aqui vemos a importância da orientação e da atenção constante. O povo não podia chegar perto da arca, mas não podia perdê-la de vista. Assim, havia uma progressão na caminhada sob a direção do Senhor.

Conheci um missionário usado por Deus em muitos ministérios, inclusive cura e profecia. Porém, ele enfrentou muitos problemas ministeriais e injustiças. Mudou de país buscando melhores condições, alcançou maior prosperidade, passou a trabalhar por conta própria, e a abundância o afastou do foco que Deus lhe dera.

Ele deixou de ser aquela ferramenta poderosa, passou a trabalhar relaxadamente, e o ministério sofreu. Essa situação é triste e desanimadora. É um exemplo claro do que acontece quando se perde a presença do Senhor, representada pela arca, e a orientação divina. O fim desse homem foi a ruína moral, incluindo adultério.

Quero voltar a Atos 27, onde Paulo enfrentou um naufrágio. Paulo não estava fora da direção de Deus, mas o barco que tinha uma missão terminou destruído no fundo do mar. Será que um missionário não pode afundar? Na verdade, não deveria, assim como um barco não é feito para afundar, mas sem a orientação correta, o final será ruína. Em Atos 27:15 está escrito:
“E, sendo o navio arrebatado, e não podendo navegar contra o vento, dando de mão a tudo, nos deixamos ir à toa.”

A palavra missionário vem de missão, e quem tem uma missão não pode simplesmente “deixar-se ir à toa”. Perdemos a direção quando saímos da rota que o Senhor estabeleceu para nossas vidas. A missão não é buscar objetivos próprios, mas cumprir o propósito daquele que nos chamou:
“Ninguém que milita se embaraça com negócios desta vida, a fim de agradar àquele que o alistou para a guerra. E, se alguém também milita, não é coroado se não militar legitimamente” (2 Timóteo 2:4).

Quando saímos da rota, caímos na inércia espiritual. A Bíblia também nos mostra Jonas, um missionário desorientado, dormindo no barco enquanto a tempestade ameaçava afundar tudo:
“E o mestre do navio chegou-se a ele, e disse-lhe: Que tens, dorminhoco?” (Jonas 1:6).

Como alguém pode dormir quando a missão está em risco? Deus deu a Jonas a missão de pregar a mensagem a Nínive, e ainda assim ele falhou em estar atento ao chamado. Jonas só respondeu após muita pressão dos marinheiros. Eles chegaram a jogá-lo ao mar por sua desobediência (Jonas 1:8-15). Melhor do que ser repreendido pelos outros, é fazer uma autoanálise, buscar a Deus e mudar de atitude.

Davi também enfrentou momentos difíceis e concluiu:
“Estou em grande angústia; porém caiamos nas mãos do SENHOR, porque muitas são as suas misericórdias; mas nas mãos dos homens não caia eu” (2 Samuel 24:14).

Missionário, que esta seja sua postura: esteja atento, mantenha o foco, e confie nas misericórdias e direção do Senhor.


Pastor Peniel Nogueira Dourado