Criando Filhos na Missão sem Perder a Família

A decisão de trabalhar na Obra, Mina e eu tomamos juntos. Nos primeiros dias de casados, sentamos à mesa e discutimos seriamente sobre o assunto, embora, mesmo antes do casamento, ainda no namoro, esse já fosse nosso tema principal.

Sentados à mesa da pequena sala da nossa primeira casa, falamos com seriedade sobre viver uma vida comum ou entregar-nos completamente ao trabalho do Senhor. Mina me disse que sempre foi seu desejo servir ao Senhor, e eu concordei, agradeci e encerramos o assunto.

Lembro que falei de casamento com Mina durante uma viagem, sobre a carroceria de uma caminhonete Ford F-14. Estávamos voltando de uma aldeia indígena no interior do Paraguai. A caminhonete corria por uma estrada de chão, cheia de poeira e buracos, quando eu disse que aquela era minha vida.

Se ela queria casar comigo, teria de saber que eu não tinha planos de buscar uma vida de luxo, nem de viver em um país rico. Eu iria apenas para onde o Senhor me enviasse. Mina aceitou o desafio, mesmo morando na época em Tóquio, Japão, com um bom emprego.

Suas férias eram passadas visitando países como Coreia do Sul ou Austrália, mas ali estava ela, sobre a carroceria de um caminhão, saltando como pipoca, tomando uma das decisões mais importantes da sua vida: viver o resto da vida ao lado de um missionário que não ganhava nem 5% do seu salário no Japão, e que falava em viver no Paraguai, visitando aldeias indígenas.

Deborah

Quando nos casamos, renovamos esse propósito diante do Senhor, sentados à mesa da nossa primeira casa. Vivemos para a Obra de Deus, porque decidimos com seriedade viver assim. Determinamos fazer a vontade do Senhor, onde Ele nos enviasse, fazendo o que Ele nos designasse.

Mas, como é natural no casamento, vieram os filhos. Quando estava grávida, Mina se preocupava com a criação deles, com a responsabilidade de trazer ao mundo inocentes que participariam de uma vida que nós escolhemos viver, não eles.

Atualmente temos apenas nossa pequena Deborah Yuiko, que este ano completou cinco anos. Ela nasceu no Paraguai, cresceu na Bolívia, mas vive como uma autêntica brasileira. Em novembro de 2011, estive com o missionário Timothy, que trabalhou por muito tempo na Bolívia e hoje serve ao Senhor na Índia.

Conversamos muito sobre criar filhos no campo missionário. Timothy tem duas filhas casadas que foram criadas em vários países do campo. Ele não é um teórico; viveu o que ensinava.

Um filho de missionário não tem fronteiras. Não se sente plenamente brasileiro, pois nasceu em outro país. Não se sente paraguaio, porque não foi criado lá. Não se considera boliviano, porque não é. Essa foi a experiência de Timothy, e agora é também a nossa.

Acredito que toda família deve ser guiada sob os cuidados do Senhor, seja ela de missionários ou não. Precisamos aprender a dizer “não”, marcar a diferença na vida dos nossos filhos e ser exemplo como servos de Deus. Em minha casa, meu pai sempre nos envolveu na Obra. Ele não era um profissional da religião.

Era pastor, e sabia da necessidade de pastorear sua própria casa. Cresci em casas pastorais, acompanhando meu pai no trabalho da igreja, participando de vigílias, orações, estudos bíblicos, escola dominical, cultos na igreja e nas ruas. O trabalho não era só dele. Era nosso.

Certa vez, um missionário me disse que levava sempre os filhos com ele nas atividades. Ele não queria que os filhos pensassem que aquele trabalho era apenas dele. O mundo pode nos ridicularizar, mas devemos ensinar aos nossos filhos que loucura é viver longe de Deus.

Meu pai dizia que fazia a Obra visando a salvação da própria família. Noé entrou com sua família na arca e foi salvo com ela (Gênesis 7:7). Lá fora havia apenas perdição. Diante da família, não valem teorias nem pregações eloquentes. O que vale são ações diárias, coerentes. É preciso colocar os filhos na arca e fechar a porta, para que não sejam atraídos pelas tentações e saiam do lugar seguro.

Quantos pais estão preocupados com a Obra de Deus, mas negligenciam seus filhos? Em Lucas 11:5-7, aprendemos com o pai de família que, ao ser procurado por um amigo à meia-noite, responde: “A porta está fechada, e meus filhos estão comigo na cama”. Que cuidado! Porta fechada, filhos em casa, deitados. Nenhum deles do lado de fora, expostos ao mundo.

Hoje, tantos jovens estão em festinhas “gospel” com quem não conhecemos, fazendo o que não sabemos. O missionário pode ver o campo como algo extraordinário, mas para os filhos, aquilo logo se torna rotina. Eles se adaptam rapidamente e, se não houver vigilância, se envolvem com o mundo. O pai precisa fechar a porta e saber onde está seu filho.

Em 2008, Deborah mal sabia andar, mas já nos acompanhava no evangelismo. A Bíblia continua sendo nosso manual, mesmo diante da modernidade. Podemos ser grandes ganhadores de almas e ainda assim perder nossa própria casa. Seremos reprovados diante do Senhor, pois a Escritura diz que o bispo deve governar bem sua casa e ter os filhos em sujeição, com toda honestidade (1Tm 3:4).

Mina e eu decidimos trabalhar para o Senhor. Para conduzir nossos filhos nesse mesmo caminho, precisamos mais do que boa vontade — precisamos da sabedoria de Deus. É triste ver homens e mulheres de Deus, com uma trajetória marcada por bênçãos, mas com filhos afastados. Embora cada um tenha seu tempo de decisão, devemos ser canais de bênção para ajudá-los a fechar as portas ao mundo.

Meu pai nunca me incentivou a buscar bens materiais, conquistar status ou correr atrás de carro novo. Sempre incentivou a servir ao Senhor. Uma vez, perguntei por que ele parecia tão apático quanto às conquistas seculares. Ele respondeu que o mundo já exerce influência suficiente por si só; ele precisava fazer o trabalho que o mundo não faria: incentivar seus filhos na Obra de Deus.

Dos cinco filhos, três ajudam meu pai no trabalho missionário no Paraguai — um é evangelista, outro diácono e minha irmãzinha, com apenas nove anos, participa cantando e apoiando. Eu e Rebeca, os dois mais velhos, somos missionários — eu na Bolívia e Rebeca, com o marido, na Bélgica, liderando uma igreja.

Você que serve a Deus — missionário, obreiro, pastor, evangelista — luta para ganhar o mundo, enquanto o inimigo tenta destruir sua casa. Felipe pregava com poder. Deus operava maravilhas por meio dele (Atos 8), mas em Atos 21:8-9, vemos que ele tinha quatro filhas que profetizavam. Ele soube fechar a porta do mundo e guardar suas filhas. Hemã, em 1 Crônicas 25:4-6, também tinha quatorze filhos e três filhas que ministravam com ele. Uma família que servia unida na música e na adoração. Isso é fechar a porta e colocar os filhos na cama.

Concluo com uma frase triste de Raquel e Leia em Gênesis 31:14: “…pois nosso pai nos vendeu…”. Embora o contexto tenha resultado em bênção, as palavras refletem dor. Quantos pais hoje não estão “vendendo” seus filhos ao mundo? Mães que orientam suas filhas a casar com homens ímpios por causa de dinheiro; pastores que incentivam todas as carreiras, menos a Obra de Deus; missionários que alimentam seus filhos com o materialismo dentro de casa. O ministério é visto como fardo, algo de que seus filhos devem ser poupados.

Mas quero ser, na minha casa, uma ferramenta de Deus. Quero incentivar minha filha Deborah a trilhar o maior caminho que alguém pode escolher: fazer a Obra do Senhor. Saímos para evangelizar juntos. Às vezes ela não pode ir, por causa do clima ou das condições, mas minha prioridade é sempre manter minha família sob meus olhos.

Certa vez, alguém disse que minha filha deveria se casar com alguém de boas condições, um empresário, para ter uma vida melhor. Respondi: minha filha vai se casar com um missionário, ainda que enfrente dificuldades muito maiores que as minhas. Isso não é um fardo — é um privilégio.

E mesmo que seja ela a tomar essa decisão no futuro, quero ser um instrumento de Deus para apontar o caminho da verdadeira glória, aquele que tem peso eterno. “Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um peso eterno de glória mui excelente” (2 Coríntios 4:17).

Peniel Nogueira Dourado


Descubra mais sobre Peniel Dourado

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

2 comentários em “Criando Filhos na Missão sem Perder a Família”

  1. Esse grande testemunho parece com minha vida de meu esposo e meu casal de filhos, que nasceram no evangelho e desde que começaram sair de casa, não sabemos o que é ficar em casa, nem por doença, graças a Deus Tinham apenas sete dias foram apresentados e começamos continuamos a fazer a obra só que daquele momento em diante na companhia de nossos novos parceiros incondicional. Nossos filhos Hoje ela” Jane” 27 anos e “wudson” com 25 anos, lideres de Jovens,bons estudiosos da Palavra e sinto que tem uma experiencia pessoal com o Senhor.ela ,Jane tem um chamado musical desde 4 anos de idade e vai fazer um ano agora em novembro que pela graça de Deus gravou seu 1º Cd que tem sido uma benção no Brasil. tem alguns videos dela no youtub, e o email dela é contato.janegomes@gmail.com. Se quizer enviar noticias do campo pra ela será bom. pois ela também ama ganhar almas pra Jesus. Vossa filha continuará seguindo Jesus por amá-lo. Podem está certo disso.. Meus filhos e esposo são bençãos ! e voces continuarão vivendo uma vida de bençãos na presença de Deus. Lendo esse testemunho, lembrei muito de meus filhos a 27 anos atrás.
    Deus vos abençoe!
    Cantora Jane Gomes no youtub O evento que ela participou recentemente foi na Cidade de Cataguases Minas Gerais eu a encontro na internet assim pelo google. pois não estudei informática ainda só me desenvolvo na internete por curiosidade.erro muito o português pois digito mal.bOM TRABALHO e dEUS ABENÇOE ATODOS

  2. Ola,

    Li o texto todinho. Muita boa e necessaria a meditação, não somente para filhos de ministros do Evangelho, mas válida também para os pais cristãos em geral. Eles sofrem grande pressão e acusação se privam os filhos de suas experiências com as coisas do mundo. Na verdade eles não estão privando, e sim resguardando seus filhos.

    Marcia Martins

Deixe uma resposta