O missionário e as Alianças Erradas

Eu sempre soube que a maior dificuldade dos missionários no campo era a falta do convívio de sua igreja local. Se o missionário é casado, tem filhos a distancia de parentes, como irmãos, pais, primos é fácil superar, mas é muito difícil superar a falta da igreja, dos amigos, companheiros de oração, evangelismo, culto de missões, conferências e etc.

Quando ouvi alguém falar sobre esse assunto pela primeira vez, achei que era coisa de quem não tem um bom relacionamento familiar. Mas eu estava enganado.

A pessoa que está acostumada com um convívio agitado, com muita gente ao redor, muitos amigos e, em alguns casos, aquele ritmo animado dos que amam o serviço missionário, sofre quando se depara com a realidade nua e crua do campo.

No campo missionário, longe da igreja local, não há plateia, não há agito, não há os movimentos calorosos em torno do tema “missões”. O que existe é a realidade: desenvolver e manter um trabalho com constância, dia após dia.

No campo, o que temos é trabalho. E só. A única motivação é a Palavra de Deus que nos enviou. É claro que você pode se emocionar ao ouvir um missionário contar testemunhos e experiências em sua igreja, mas a verdade é que o dia a dia no campo é feito de uma sequência de esforços e tarefas constantes.

Acredito que essa realidade tem frustrado muitos que se lançaram ao campo apenas por empolgação. Com o tempo, acabam realizando um trabalho raso, superficial. E, para ser sincero, às vezes nem dá para chamar de trabalho missionário, pois se parece mais com turismo do que com missão.

A “moda” agora é passar 15 dias no campo, visitar todos os lugares onde o missionário atua, e tentar sentir — durante esse curto período e que não deve passar disso — na própria pele os desafios do serviço missionário. Mas tudo precisa ser rápido, leve e sem compromissos. Que isso fique bem claro!

No entanto, também quero deixar registrado que nem todos os que vêm ao campo por alguns dias fazem parte desse grupo sem compromisso. Aqui na nossa Base de Apoio na Bolívia, já recebemos muitas pessoas que têm feito um excelente trabalho. São verdadeiros missionários de apoio, e ajudam muito a obra missionária.

Pastor Peniel e Mina

Eu e Mina deixamos nossa igreja e nossos familiares para trás em julho de 2006. Diante de nós havia apenas um futuro que só Deus conhecia. Enquanto, na nossa igreja, os cultos de Santa Ceia eram realizados com a casa cheia, nós celebrávamos com dois cálices e dois pedacinhos de pão, em uma sala vazia, sobre uma mesa que, na verdade, era uma caixa de papelão.

Parecia cena de foto para colocar no Instagram — mas, em 2006, não existia Instagram, nem Facebook, e quase não tirávamos fotos. Aquilo era o verdadeiro cálice amargo das missões, algo que pouca gente realmente sabe o que é.

E eu não vou dizer que isso é fácil — porque realmente não é. Mas o propósito de Deus para nossas vidas é maior do que nossos próprios desejos. Precisamos cumprir esse propósito.

Com o tempo, fomos percebendo que não tínhamos nenhuma experiência com as diferenças culturais. Tivemos que aprender tudo na prática, e com muito sofrimento. Sempre mantive o desejo de ter um grupo de amigos próximos, companheiros de trabalho, um círculo familiar ao nosso redor.

Mas sempre comparávamos tudo com a casa e os amigos que deixamos, e nunca parecia suficiente. Confesso que, muitas vezes, eu e Mina apresentamos essa necessidade a Deus em nossas reuniões de oração. Queríamos ter uma “réplica” dos amigos que deixamos para trás.

Vivendo essa carência, não percebemos que o inimigo estava pronto para armar seus laços. Quando temos um propósito dado por Deus à nossa frente, precisamos ter muito cuidado com as companhias que escolhemos.

Podemos fazer alianças que nos tiram da rota, nos desviam do propósito, e — com certeza — nos farão ser reprovados diante do Senhor Jesus.

Não foi exatamente isso que aconteceu com Salomão? Ele fez aliança com mulheres idólatras. Deus havia dito ao Seu povo para não se unirem a elas, mas a Palavra nos diz que “a estas se uniu Salomão com amor” (1 Reis 11:2).

Mas como um homem tão sábio, com tantas experiências com Deus, entrou por esse caminho? Quais foram seus motivos? Sim, com certeza ele tinha seus argumentos e muitas justificativas. Talvez até explicações “sábias e espirituais” — pelo menos aos olhos dos homens, mas não aos olhos de Deus.

Fazer aliança errada não foi apenas o erro de Salomão. Nós também podemos lembrar do rei Asa que usou o tesouro do Templo entregando a Ben-Adad rei da Síria fazendo aliança para lutar contra Baasa o rei do norte.

Não faltou um profeta, um homem de Deus, que estava vendo o que Asa não via, pois seus olhos estavam tapados pela necessidade. O profeta Hanani disse:
“Porquanto confiaste no rei da Síria, e não confiaste no Senhor teu Deus, por isso o exército do rei da Síria escapou da tua mão” (2 Crônicas 16:7).

A Palavra do Senhor, por meio do profeta, impactou tanto o rei Asa que ele saiu desnorteado, cometendo uma série de atos impensados. Asa mandou prender o profeta, tentando calar a voz de Deus. Mas é possível silenciar um profeta — nunca a boca de Deus.

Em 2 Crônicas 18, encontramos o relato da aliança de Josafá com Acabe. Josafá, o rei temente a Deus; Acabe, o rei ímpio. Sim, nos momentos de necessidade, sempre haverá oportunidades para fazer alianças erradas. Essa aliança aqui não resultou em desgraça para Josafá porque o Senhor, em sua misericórdia, já tinha planos de juízo para Acabe.

O missionário guiado por Deus precisa manter o foco no propósito que lhe foi confiado. Se você está no campo missionário, recomendo que tenha muito cuidado com suas companhias.

Os filhos de Israel saíram do Egito com o foco na Terra Prometida. Mas havia um povo entre eles que não era povo de Deus.

A Bíblia, na Nova Versão Internacional, usa um termo interessante: “um bando de estrangeiros”. Diz assim:
“Um bando de estrangeiros que havia no meio deles encheu-se de gula, e até os próprios israelitas tornaram a queixar-se, e diziam: ‘Ah, se tivéssemos carne para comer!’” (Números 11:4).

Ao sair do Egito, eles não trouxeram apenas suas bagagens. “Grande multidão de estrangeiros de todo tipo seguiu com eles” (Êxodo 12:38).

Certo pastor — missionário experiente na Bolívia — me perguntou sobre meus planos, quando ainda estávamos chegando ao campo. Na época, pensávamos em abrir uma igreja e começar a trabalhar com o povo.

Mas o pastor começou a falar sobre os bairros onde moravam pessoas ricas. Aconselhava-me a pensar no futuro e evitar trabalhar nas periferias. Fiquei chocado. Depois, encontrei outro “missionário” — ou pelo menos se dizia ser — que só pensava em conforto, carros bons e dinheiro.

Ele tinha uma boa casa, um bom carro, e em nenhum momento me falou de evangelismo, da obra ou das necessidades da Bolívia. Ali percebi que estava tendo contato com o “vulgo” que, mesmo no meio do povo de Deus, tem coração voltado para outra direção. São esses que fazem o povo clamar:
“Ah, se tivéssemos carne para comer!” (Números 11:4).

Se você passar muito tempo bebendo da cisterna podre desse tipo de gente, vai se encher de amargura, e pode acabar acreditando que o maná de Deus é apenas um “pão miserável” (Números 21:5).

O Senhor Jesus tem me dado essa Palavra, e agora a escrevo. Sempre procuro falar no contexto de missões, para ajudar os que estão no campo e os que desejam ir. Mas tenho certeza de que essa Palavra serve também para você que talvez nem esteja em missões.

Por favor, não pense que essa mensagem é para outro. Ela serviu para mim, e agora mesmo serve para você. O Espírito de Deus fala ao seu coração neste momento:
Tenha cuidado com alianças erradas!

Seja no campo missionário ou na igreja, precisamos ter discernimento sobre com quem andamos. Talvez você esteja em um lugar novo, precisando de amizades. Então ore a Deus por amigos verdadeiros, enviados por Ele.

O profeta Ezequiel viu vinte e cinco homens de costas para o templo, adorando o sol (Ezequiel 8:16). Eles estavam no ambiente da igreja (o Templo), mas seus corações estavam inclinados a outro deus.

Em Atos dos Apóstolos, encontramos algo semelhante. A Palavra diz:
“Este é o que esteve na congregação no deserto, com o anjo que lhe falava no monte Sinai, e com nossos pais, o qual recebeu palavras de vida para vo-las dar; ao qual os nossos pais não quiseram obedecer, antes o rejeitaram, e em seus corações voltaram ao Egito (Atos 7:38-39).

Eles seguiam rumo à Terra Prometida, mas em seus corações ainda estavam no Egito. O problema é que essa condição é contagiosa. Você anda com eles e acaba ficando igual a eles.

Aqui na Bolívia, o Senhor Jesus tem nos confiado o trabalho evangelístico com muita literatura. Já distribuímos toneladas de material, apoiando evangelistas e grupos de evangelismo.

As portas sempre se abriram quando andamos nessa direção. Como já mencionei, chegamos à Bolívia com a intenção de abrir uma igreja, mas o Senhor começou a nos direcionar para outro tipo de obra.

Aqui temos contato com missionários de diversos ministérios. Geralmente, enfrentamos dificuldades com aqueles que acham que seu ministério é o único que importa. Eles não respeitam o que fazemos, desprezam o trabalho que realizamos e, para eles, estaríamos certos se parássemos tudo para apoiá-los.

São homens e mulheres de Deus, sim — mas são ignorantes nesse aspecto. Eu os respeito e admiro sinceramente pelo que fazem no Reino. Mas não aceito que tentem me tirar do propósito que o Senhor me confiou.

Já deixei de andar com muita gente por causa disso. Alguns pastores acreditam que o único trabalho válido no Reino é pastorear uma igreja. Alguns evangelistas pensam que só quem prega nas ruas está evangelizando de verdade. Outros acham que só quem discipula é produtivo.

Eles ignoram que o Reino de Deus é tudo isso e muito mais. Nem o meu ministério é o centro, nem o deles. O centro é Cristo Jesus.

É bonito falar sobre isso, escrever sobre isso — mas na prática, muitas vezes, essa verdade não é vivida. Por isso, para evitar conflitos, às vezes é melhor manter distância. Eu não quero tirar ninguém do foco que recebeu, assim como não quero sair do objetivo que o Senhor confiou a mim.

Sempre que encontro um missionário recém-chegado, procuro falar sobre esse assunto. Digo com toda clareza: não importa o tipo de trabalho que você está fazendo — todos pertencemos ao Reino de Deus.

Se houver respeito, com certeza seremos bons companheiros. Essa é a minha contribuição, tentando ajudar para que se evitem problemas no futuro.

Infelizmente, nem sempre somos ouvidos.

Pastor Peniel Nogueira Dourado

Mas que o Senhor nos direcione cada dia e nos ajude a selecionar as pessoas com as quais sentamos. Este é minha oração.

Por  –  Peniel N Dourado


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2 comentários em “O missionário e as Alianças Erradas”

  1. Mais uma bendita palavra. Obrigado por dedicar seu tempo e escrever posts como este. Deus o abençoe muito!!
    De Petrópolis, Rio de Janeiro
    Thiago

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