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Expectativas Falsas: O que Abala o Ministério Missionário?

No campo missionário, é muito comum as pessoas criarem visões distorcidas. Lembro de um irmão que veio de São Paulo. Ele tinha visto uma reportagem sobre nosso trabalho com os povos indígenas e estava super entusiasmado.

Chegamos no caminhão que ia para a aldeia, e a realidade veio à tona. Um indígena embriagado começou a nos acusar de roubar madeira. A confusão foi tanta que ele sacou uma faca! O caminhão parou, nós pulamos e fugimos.

O irmão ficou aterrorizado, com pavor dos indígenas. Ele acabou desistindo de continuar, e tivemos que prosseguir com a obra sozinhos. O que aconteceu com ele? Ele criou uma expectativa equivocada, a de um aventureiro que tiraria fotos e viveria uma experiência incrível. Mas o campo missionário não é assim. A Bíblia nos lembra que “o coração do homem planeja o seu caminho, mas o Senhor lhe dirige os passos” (Provérbios 16:9). Nossos planos e expectativas podem ser derrubados, mas a vontade de Deus prevalece.

Em outra ocasião, na Bolívia, a caminho do Peru, passamos por uma situação terrível: fome, problemas com a imigração e quase perdemos o ônibus. Um irmão que estava conosco perguntou como eu conseguia enfrentar aquilo em silêncio. Respondi: “Precisamos manter o foco na missão, ir e resolver o que precisa ser resolvido”. Isso ecoa a instrução de Jesus em Lucas 14:28, que nos ensina a calcular o custo antes de iniciar uma jornada. O campo missionário exige realismo.

Seja realista. Não espere que o deserto seja um paraíso; será quente e sem água. Não se engane com lugares frios, pensando que são como nos filmes. O frio é o mesmo em qualquer lugar, e muitos missionários nem saem de casa nessas regiões porque a expectativa era falsa. A primeira dica é: não cultive expectativas irreais. Isso só vai gerar frustração. Você está entrando em território inimigo, e tudo pode acontecer.

Confiança em Deus, não em Homens

Outra causa de desânimo é a dependência excessiva de outras pessoas, a confiança desmedida em seres humanos. Muitos missionários confiam 100% em seu pastor ou em uma agência para a sustentação de seu projeto. Minha pergunta é: e se seu pastor começar a falhar no envio de recursos? Isso é uma possibilidade, e você precisa estar pronto. A Palavra de Deus nos adverte: “Não confieis em príncipes, nem em filho de homem, em quem não há salvação” (Salmos 146:3).

Se você recebeu o chamado divino, a responsabilidade pela obra é sua. Você pode receber apoio de sua igreja, mas não pode depositar toda a sua fé nisso. As pessoas falham. A sustentação de um projeto deve estar em suas mãos. Por exemplo, sempre busco ter três ou quatro fontes de apoio, pois sou o responsável pelo trabalho que o Senhor me confiou. Como Filipenses 4:19 nos assegura, “o meu Deus suprirá todas as vossas necessidades, segundo as suas riquezas na glória em Cristo Jesus”. A provisão vem d’Ele.

Tenho 45 anos e comecei no ministério missionário aos 19. Uma coisa que aprendi é que os projetos estão sempre se expandindo, e dedico boa parte do meu tempo a buscar novas parcerias e a divulgar a obra. Por quê? Porque à medida que o trabalho cresce, preciso envolver mais gente. Não confie em uma única pessoa ou igreja. Isso cria uma ilusão e leva à frustração.

A Comunicação é Essencial

Por fim, a terceira razão para o desânimo é a falta de comunicação. Às vezes, o doador pensa que você está envolvido em um projeto, mas, na verdade, você está em outro. A falta de comunicação pode gerar mal-entendidos e levar à interrupção do apoio.

Eu me esforço para ser muito transparente sobre meu trabalho. Digo que sou pastor de uma igreja no Paraguai e explico o que fazemos. Digo que estou à frente do Programa de Apoio Evangelístico e mostro o que realizamos. Essa comunicação clara e contínua evita problemas. Paulo era um mestre na comunicação, sempre informando as igrejas sobre seu ministério e as necessidades da obra (2 Coríntios 11:28).

O missionário, quando está no campo, fica tão focado na obra que, muitas vezes, esquece de fornecer informações aos mantenedores. Se você não fizer isso, o apoio cessará. A maioria das pessoas para de ajudar após três meses, no máximo seis. Depois de um ano, você estará sozinho. A comunicação é vital para as missões, pois “cada um de vocês deve ser pronto para ouvir, tardio para falar e tardio para se irar” (Tiago 1:19), garantindo que as informações sejam claras e o relacionamento, sólido.

Nossa jornada é cheia de incertezas, mas a convicção de que Deus nos guia é o que nos sustenta. Seja realista, confie em Deus e comunique-se de forma clara. Esses três pilares vão te manter firme no campo, mesmo quando a realidade se chocar com suas expectativas.

Obediência: A Chave para a Missão Transcultural Eficaz

Para um missionário no campo transcultural, o chamado é uma jornada permanente na confiança e permanência na palavra que lhe foi dada pelo Senhor Jesus para o chamado, a constante dependência da direção do Espírito de Deus aos passos dados.

Diariamente, somos confrontados com a necessidade de nos rendermos à vontade de Deus, deixando de lado nossas próprias preferências, estratégias e lógicas. Deus nos leva a caminhos novos nunca antes trilhados. E essa rendição total à Sua direção é a base para um ministério eficaz e duradouro no serviço de missões.

Peniel e Mina. Pôr do sol à beira do Rio Paraguai, Corumbá, fronteira com Bolívia

Afinal, por que chamamos a Cristo de “Senhor, Senhor”, se não fazemos o que Ele diz? O missionário é chamado para fazer a vontade do Senhor Jesus e não sua própria vontade. A Palavra de Deus nos questiona diretamente sobre a autenticidade de nossa fé e nosso chamado. A autoridade de Cristo sobre nossas vidas não é apenas uma declaração verbal; é uma prática diária de obediência. Isso se aplica de forma intensa à vida do missionário, que deve estar submetido à soberania de Deus em cada passo, em cada decisão.

A obra missionária é do Senhor Jesus e nós somos seus servos. Ele é o verdadeiro dono de tudo o que se faz na obra e é dEle que devemos buscar respostas para nossas dúvidas e orintações aos nossos possos passos. Quais são tuas dúvidas: Onde fazer missões? O que fazer no campo de missões? Onde servir? Até quando servir? O Dono da obra tem respsota para cada uma de nossas dúvidas.

O livro de Atos nos mostra claramente isso. A grande expansão da igreja primitiva não aconteceu por estratégias humanas geniais, mas sim por uma obediência radical ao Espírito Santo. Em Atos 13:2, vemos que o Espírito Santo, por Sua própria vontade, separou Barnabé e Saulo para a obra missionária. A iniciativa e o envio partiram d’Ele.

Isso nos lembra que o Espírito Santo é o agente principal da missão. Ele usa Suas ferramentas para que o escolhido vá e desenvolva um trabalho. A experiência do apóstolo Paulo é um exemplo perfeito. Em sua segunda viagem missionária, ele desejava pregar na Ásia, mas o Espírito Santo o impediu, como relata Atos 16:6-7. Não era que a Ásia não precisasse do evangelho, mas Deus tinha um lugar específico para Paulo.

Ele foi direcionado a ir para a Macedônia, atendendo ao chamado do “homem macedônio” através de uma visão (Atos 16:9). Se Paulo tivesse insistido em seus próprios planos, a evangelização da Europa, que mudou o rumo da história, poderia ter sido adiada ou tomada por outro.

Evangelismo em Punata, Bolívia

A lição para nós, missionários transculturais, é clara: não podemos estar em dois lugares ao mesmo tempo. Se Deus nos coloca em uma posição específica, Ele deseja que fiquemos ali e produzamos frutos no lugar específico onde Ele nos colocou. Não é nosso desejo, nossa lógica ou nossa busca por um apoio “mais fácil” que deve nos guiar.

O chamado de Deus pode nos levar a lugares onde o apoio financeiro é escasso, a cultura é desafiadora ou o estilo de vida é menos confortável. No entanto, é a obediência à Sua voz que garante nosso sucesso espiritual, independentemente das circunstâncias externas.

A Missão Construída sobre a Rocha

A raiz do problema de muitos que se desviam do chamado é a falta de um alicerce firme. Jesus nos alerta sobre isso em Lucas 6:47-48. Ele compara aquele que ouve Suas palavras e as pratica a um homem que constrói sua casa sobre a rocha. Para o missionário, a rocha é a Palavra e a direção específica de Deus.

Nossa vida e nosso ministério devem ser edificados sobre essa rocha, cavando fundo para que as tempestades não nos abalem. A vontade de Deus não pode ser negociada. Se Ele o chamou para ser um evangelista, seu foco deve ser o evangelismo, e não o pastorado. E o oposto também é verdade. Cada ministério tem sua especificidade e sua ordem, como descrito em Efésios 4:11, que fala sobre os cinco ministérios.

Batismo na Misión Siloé no Paraguai

O homem que ouve a palavra e a pratica está construindo sua vida sobre a vontade de Deus. Quando as tempestades vêm – a escassez, a solidão, a oposição cultural ou a falta de resultados imediatos –, a sua casa não cai, pois ela tem um alicerce inabalável que é a Palavra de Cristo refletindo a vontade de Cristo Jesus.

No entanto, aquele que ouve a voz de Deus, mas não a pratica, constrói sua casa sobre a areia. Ele se baseia em sua própria lógica, nos argumentos dos outros e em tudo o que parece ser mais fácil ou mais lucrativo. Certamente esse tipo de trabalho cairá.

Muitas vezes, a voz de Deus nos direciona a lugares que, humanamente, não fazem sentido. Podemos ser chamados a trabalhar em um país com poucas igrejas de apoio, ou em uma cidade com uma cultura extremamente fechada ao evangelho. Nesse momento, a tentação é grande de ouvirmos nossos próprios argumentos: “Senhor, as igrejas brasileiras não apoiam missionários na Europa!”, ou “É um lugar difícil de trabalhar!”.

Quando cedemos a esses argumentos e construímos nossa missão em cima de nossa própria lógica, estamos construindo sobre a areia. O trabalho até pode parecer que está dando certo por um tempo, mas quando a tempestade da dificuldade chega, tudo desanda.

Querido amigo missionário, a vida em missões não é sobre o que “dá certo” segundo os padrões do mundo, mas sobre a obediência incondicional àquele que nos chamou. João batista teve uma vida de preparação e desenvolvou o seu ministério em apenas seis meses. Mas esta foi a vontade de Deus.

Evangelismo em San Julian, Bolívia (2014)

A melhor cidade, o melhor país, o tempo certo de permanência no campo, o melhor trabalho para você é onde Deus te manda. O missionário constrói sua vida sobre a Palavra de Deus, que é o alicerce firme para o serviço de missões.

A tempestade da vida vem para todos, tanto para aqueles que estão na vontade de Deus quanto para os que não estão. A diferença é o que acontece depois que ela passa. O que construiu sobre a rocha permanece de pé, enquanto o que construiu sobre a areia vê sua obra destruída.

Seja Firme no Chamado

A vitória na missão transcultural não está em seguir as “fórmulas de sucesso” ou em buscar o caminho mais fácil. A vitória está em ser fiel à Palavra que Deus lhe deu. A obediência radical, mesmo quando não entendemos o porquê, é a maior prova de amor e fé que podemos dar ao nosso Senhor.

Ele nos conhece e tem um plano perfeito para cada um de nós, como afirma Jeremias 29:11. Nosso papel é estar com o coração aberto e os ouvidos atentos para ouvir Sua voz e seguir Suas ordens. O caminho pode ser difícil e solitário, mas a certeza de que estamos no centro da vontade de Deus é o que nos sustenta e nos garante que a nossa obra não será em vão (1 Coríntios 15:58).

Fique firme no chamado que você recebeu. A sua recompensa não está na visibilidade, no conforto ou na estabilidade, mas na glória de ouvir um dia: “Muito bem, servo bom e fiel” (Mateus 25:23).

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