Arquivo da tag: injustiças no campo missionário

O Preço da Missão: Injustiças, Provações e a Fidelidade à Chamada

Quem deseja fazer missões precisa estar preparado para enfrentar adversidades. Em muitos casos, ao sair do seu país, o missionário passa a viver como estrangeiro em terras que não são suas. A Palavra de Deus nos orienta: “Não oprimirás o estrangeiro; pois vós conheceis o coração do estrangeiro, porque fostes estrangeiros na terra do Egito” (Êxodo 23:9). No entanto, o mundo que não conhece a Deus, também não conhece esse mandamento.

No campo missionário, sentimos na pele a acepção, o preconceito, o desprezo e a injustiça. Muitas vezes, direitos se tornam concessões e pedir justiça parece clamar no deserto. Lembro-me bem de quando cheguei a Santa Cruz de La Sierra. Peguei um táxi no terminal de ônibus até a casa de um irmão. O motorista, ao perceber que eu era brasileiro, me cobrou quatro vezes o valor normal. Como no Brasil o táxi é caro, achei o preço justo. Mas ao contar ao irmão anfitrião, ele ficou perplexo. Foi meu primeiro choque com a realidade de ser estrangeiro.

No Paraguai, quando dávamos entrada no visto de permanência, os funcionários da migração retinham os passaportes e pediam dinheiro constantemente, alegando diversos motivos, sem nunca finalizarem o processo. Já na Bolívia, recebíamos uma lista de documentos, mas sem endereços. Quando procurávamos informações, éramos direcionados de um lugar a outro e, por fim, nos cobravam até 10 dólares apenas por informar o caminho. Nessas horas, a única saída era orar: “Lança o teu cuidado sobre o Senhor, e ele te susterá; jamais permitirá que o justo seja abalado” (Salmos 55:22).

No entanto, mais difícil do que as injustiças do mundo são aquelas que vêm dos que se dizem cristãos. A obra missionária desperta emoções, move igrejas e estimula contribuições. Mas também se torna, infelizmente, um ambiente fértil para injustiças. Quando nossa família saiu do Ceará, em 1995, rumo ao Paraguai, vendemos tudo e fomos buscar apoio em igrejas. Algumas nos acolheram bem, outras, infelizmente, abusaram da confiança. Em campanhas de missões, os valores ofertados pelos irmãos nem sempre chegavam em nossas mãos. Certa vez, recebemos apenas R$ 50,00 de oferta. Um irmão nos abordou e disse que ele mesmo havia doado R$ 300,00 naquela noite. “A falsa balança é abominação para o Senhor, mas o peso justo é o seu prazer” (Provérbios 11:1).

Também fomos testados em nossa integridade. Enquanto buscávamos uma casa para morar, ficamos hospedados na casa de um pastor. Após nos mudarmos, ele nos visitou e disse que havíamos sido observados, pois alguns visitantes causavam confusões e até semeavam divisão. Ele nos parabenizou e disse que sua igreja sempre estaria de portas abertas para nós. Por outro lado, em outra igreja, a esposa de um pastor reagiu com receio ao saber que alugaríamos uma casa perto da congregação. Temia que fôssemos “roubar” seus membros. Dói ser julgado sem sequer ter agido. Mas a Palavra nos ensina: “Não julgueis segundo a aparência, e sim pela reta justiça” (João 7:24).

Fazer missões exige preparo para enfrentar o pior. O missionário é a ponta de uma grande estrutura: igrejas, secretarias, associações e agências. Mas muitas vezes essa estrutura está comprometida. Igrejas perdem o foco missionário, agências se tornam fraudulentas, e missionários acabam dependendo de contratos, como quem precisa da justiça dos homens para garantir o sustento. Isso é triste. O evangelho deve ser motivado pelo amor, não por cláusulas contratuais.

“Vi debaixo do sol que no lugar do juízo havia impiedade, e no lugar da justiça havia iniqüidade” (Eclesiastes 3:16). O chamado de Deus é sublime: levar a salvação aos perdidos, alcançar os que vivem sem esperança. Isso vale qualquer sacrifício. Mas enfrentar injustiças dentro da própria casa de fé pode ser o golpe mais doloroso. Missionários fiéis, que largaram tudo, enfrentam calúnias e abandono. Já vi homens e mulheres com potencial extraordinário serem vencidos pela dor da injustiça e voltarem atrás.

Um exemplo marcante foi o de um missionário do Espírito Santo, que veio com sua família para a Bolívia. A secretaria de sua igreja não calculou os custos, e o visto custava mil dólares. Ele foi acusado de superfaturamento. Chorava ao contar a história. “Maldito aquele que fizer injustiça ao estrangeiro, ao órfão e à viúva” (Deuteronômio 27:19).

A força para suportar tudo isso está em manter os olhos fixos em Jesus, autor e consumador da fé (Hebreus 12:2). A justiça verdadeira virá do Senhor, que conhece os corações. E um dia Ele dirá: “Muito bem, servo bom e fiel! Você foi fiel no pouco, eu o porei sobre o muito. Venha e participe da alegria do seu senhor” (Mateus 25:23).

Por  –  Peniel N Dourado