Arquivo da tag: fidelidade a Deus

Fé e obediência: quando a Palavra te alcança

Fazer missões é enfrentar situações fora do comum. Para permanecer, é necessário ter uma força também fora do comum. Essa força vem da fé que nasce ao ouvirmos a voz de Deus. É pela Palavra que somos fortalecidos e capacitados para obedecer ao chamado, vencer as barreiras e cumprir o que nos foi ordenado (Isaías 40:29-31).

Como está escrito: “De sorte que a fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela Palavra de Deus” (Romanos 10:17). Sem fé, não se pode agradar a Deus, nem realizar nada no campo missionário (Hebreus 11:6). Em momentos de pressão e lutas, minha oração é simples: “Senhor Jesus, estou aqui porque tua Palavra me alcançou. Ajuda-me!”. E repito isso muitas vezes, porque a Palavra que nos envia é também a que nos sustenta (João 15:5).

Peniel Dourado e Mina

Só fé explica por que um irmão permanece anos pregando em presídios. Só fé explica por que alguém deixa o conforto urbano para viver entre ribeirinhos da Amazônia ou nos Andes bolivianos. Quando a Palavra nos alcança, a fé é gerada, e por essa fé vivemos: “O justo viverá pela fé” (Romanos 1:17).

Nós estamos na Bolívia porque a Palavra nos alcançou e cremos nela. Tudo começou em 2004, quando recebi alguns pastores que estavam se mudando de São Paulo. Não eram da minha denominação, mas os ajudei. Um deles, certo dia, nos chamou à mesa, leu um texto profético e orou. Deus o usou para nos dizer que não deveríamos criar raízes no Paraguai, pois Ele nos levaria para outra nação.

Reagi com incredulidade. Meu julgamento foi que a profecia era carnal. Mas, pouco tempo depois, outro jovem evangelista confirmou a mesma palavra. E novamente rejeitei. Não por falta de fé, mas porque não queria sair do Paraguai, onde estava envolvido com evangelismo, rádio e presídios desde 1995.

Mas disse ao Senhor que, se uma terceira pessoa falasse a mesma coisa, eu consideraria. Em 2006, Deus enviou a terceira, a quarta, a quinta… Comecei a ouvir a mesma Palavra em diferentes lugares. Fui vencido. O peso espiritual se intensificou. Não conseguia mais evangelizar, pregar na rádio ou continuar com as atividades ministeriais. Entrei no quarto para orar, e ali permaneci por dias, talvez mais de um mês. Gemia. Não havia palavras, apenas sede da voz de Deus.

Peniel e Mina próximo a Chochis, Bolívia

E um dia, no secreto, o Espírito Santo falou: “Bolívia”. Nunca tinha pesquisado sobre o país. Apenas conhecia a fronteira em Corumbá (MS). Não tivemos tempo para planos, nem para saber custos ou condições econômicas. Diante de Deus, respondemos: “Sim”.

Senti um peso insuportável antes da resposta. Tudo parecia perder o sentido: a rádio, os cultos, a igreja. Lia livros e devocionais sem conseguir pregar. Meu único alimento era a oração e o clamor. Mas quando ouvi “Bolívia”, respondi “Sim”. E minha esposa, grávida, também disse “Sim”. Então oramos, e Deus revelou: Santa Cruz de la Sierra.

A Palavra nos alcançou. A fé veio. A certeza era tão profunda que sabíamos que não havia lugar mais seguro para estar. E entendemos: fé também é fidelidade (Tiago 2:17). Deus disse para irmos à Bolívia, então ser fiel significava permanecer. Muitos abandonam o campo não por falta de poder, mas por falta de fidelidade à Palavra.

Alguns repetem: “Deus me enviou”. Mas estão mais interessados em conforto do que em obedecer. Querem “comer o melhor da terra” (Isaías 1:19) esquecendo que esse versículo tem condição: obediência. Se você quiser vencer, mantenha os olhos fixos na Palavra. Pedro afundou quando tirou os olhos de Jesus (Mateus 14:30).

Por causa da Palavra que nos alcançou, vendemos tudo. Vendi meu carro. Antes de vendê-lo, tentei ir à Santa Cruz, mas o motor fundiu. Vendemos móveis para consertar. Depois, vendemos o carro para seguir viagem. Chegamos em Santa Cruz e alugamos uma casa. Tínhamos apenas um colchão, um fogão, um botijão e algumas malas. Mas tínhamos a Palavra.

Houve oposição da família. Era esperado: país desconhecido, gravidez, nenhuma estrutura. Mas a Palavra era nossa rocha. Como em Daniel 3:17-18, aprendemos a dizer: “Se Deus nos livrar, amém. Se não, também não negaremos”. Fé autêntica não depende do resultado. É fidelidade à voz que nos alcançou.

Se você diz ter fé, saiba que será provado. Como os que enfrentaram a cova dos leões, a fornalha, ou as arenas romanas (Hebreus 11:36-38). A Palavra que te chamou é soberana. “Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida” (Apocalipse 2:10).

Finalizo com um encorajamento: você que serve ao Senhor onde quer que esteja, saiba que foi Jesus quem te colocou aí. Não despreze o chamado. “Em nada tenho a minha vida por preciosa, contanto que cumpra com alegria minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus” (Atos 20:24). Que a Palavra que te alcançou seja sua motivação todos os dias.

Peniel N Dourado

O Preço da Missão: Injustiças, Provações e a Fidelidade à Chamada

Quem deseja fazer missões precisa estar preparado para enfrentar adversidades. Em muitos casos, ao sair do seu país, o missionário passa a viver como estrangeiro em terras que não são suas. A Palavra de Deus nos orienta: “Não oprimirás o estrangeiro; pois vós conheceis o coração do estrangeiro, porque fostes estrangeiros na terra do Egito” (Êxodo 23:9). No entanto, o mundo que não conhece a Deus, também não conhece esse mandamento.

No campo missionário, sentimos na pele a acepção, o preconceito, o desprezo e a injustiça. Muitas vezes, direitos se tornam concessões e pedir justiça parece clamar no deserto. Lembro-me bem de quando cheguei a Santa Cruz de La Sierra. Peguei um táxi no terminal de ônibus até a casa de um irmão. O motorista, ao perceber que eu era brasileiro, me cobrou quatro vezes o valor normal. Como no Brasil o táxi é caro, achei o preço justo. Mas ao contar ao irmão anfitrião, ele ficou perplexo. Foi meu primeiro choque com a realidade de ser estrangeiro.

No Paraguai, quando dávamos entrada no visto de permanência, os funcionários da migração retinham os passaportes e pediam dinheiro constantemente, alegando diversos motivos, sem nunca finalizarem o processo. Já na Bolívia, recebíamos uma lista de documentos, mas sem endereços. Quando procurávamos informações, éramos direcionados de um lugar a outro e, por fim, nos cobravam até 10 dólares apenas por informar o caminho. Nessas horas, a única saída era orar: “Lança o teu cuidado sobre o Senhor, e ele te susterá; jamais permitirá que o justo seja abalado” (Salmos 55:22).

No entanto, mais difícil do que as injustiças do mundo são aquelas que vêm dos que se dizem cristãos. A obra missionária desperta emoções, move igrejas e estimula contribuições. Mas também se torna, infelizmente, um ambiente fértil para injustiças. Quando nossa família saiu do Ceará, em 1995, rumo ao Paraguai, vendemos tudo e fomos buscar apoio em igrejas. Algumas nos acolheram bem, outras, infelizmente, abusaram da confiança. Em campanhas de missões, os valores ofertados pelos irmãos nem sempre chegavam em nossas mãos. Certa vez, recebemos apenas R$ 50,00 de oferta. Um irmão nos abordou e disse que ele mesmo havia doado R$ 300,00 naquela noite. “A falsa balança é abominação para o Senhor, mas o peso justo é o seu prazer” (Provérbios 11:1).

Também fomos testados em nossa integridade. Enquanto buscávamos uma casa para morar, ficamos hospedados na casa de um pastor. Após nos mudarmos, ele nos visitou e disse que havíamos sido observados, pois alguns visitantes causavam confusões e até semeavam divisão. Ele nos parabenizou e disse que sua igreja sempre estaria de portas abertas para nós. Por outro lado, em outra igreja, a esposa de um pastor reagiu com receio ao saber que alugaríamos uma casa perto da congregação. Temia que fôssemos “roubar” seus membros. Dói ser julgado sem sequer ter agido. Mas a Palavra nos ensina: “Não julgueis segundo a aparência, e sim pela reta justiça” (João 7:24).

Fazer missões exige preparo para enfrentar o pior. O missionário é a ponta de uma grande estrutura: igrejas, secretarias, associações e agências. Mas muitas vezes essa estrutura está comprometida. Igrejas perdem o foco missionário, agências se tornam fraudulentas, e missionários acabam dependendo de contratos, como quem precisa da justiça dos homens para garantir o sustento. Isso é triste. O evangelho deve ser motivado pelo amor, não por cláusulas contratuais.

“Vi debaixo do sol que no lugar do juízo havia impiedade, e no lugar da justiça havia iniqüidade” (Eclesiastes 3:16). O chamado de Deus é sublime: levar a salvação aos perdidos, alcançar os que vivem sem esperança. Isso vale qualquer sacrifício. Mas enfrentar injustiças dentro da própria casa de fé pode ser o golpe mais doloroso. Missionários fiéis, que largaram tudo, enfrentam calúnias e abandono. Já vi homens e mulheres com potencial extraordinário serem vencidos pela dor da injustiça e voltarem atrás.

Um exemplo marcante foi o de um missionário do Espírito Santo, que veio com sua família para a Bolívia. A secretaria de sua igreja não calculou os custos, e o visto custava mil dólares. Ele foi acusado de superfaturamento. Chorava ao contar a história. “Maldito aquele que fizer injustiça ao estrangeiro, ao órfão e à viúva” (Deuteronômio 27:19).

A força para suportar tudo isso está em manter os olhos fixos em Jesus, autor e consumador da fé (Hebreus 12:2). A justiça verdadeira virá do Senhor, que conhece os corações. E um dia Ele dirá: “Muito bem, servo bom e fiel! Você foi fiel no pouco, eu o porei sobre o muito. Venha e participe da alegria do seu senhor” (Mateus 25:23).

Por  –  Peniel N Dourado