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Quando Deus muda o rumo da missão: lições do campo

Em nossa Base de Apoio, costumo levantar às 5h40 da manhã. Geralmente preparo um café, mas como estamos em um período mais frio, gosto de tomar um chimarrão — isso, claro, quando tenho erva, já que aqui em Santa Cruz de la Sierra nem sempre encontramos com facilidade.

Hoje pela manhã, abri minha Bíblia e me deparei com a história de Saulo, a caminho de Damasco (Atos 9). Essa passagem me fez refletir sobre como Deus age em nossas vidas no campo missionário. Essa experiência é válida também para quem não está no campo, mas quero aplicá-la diretamente à realidade missionária, pois é o ambiente em que vivo e sirvo.

Saulo tinha tudo: o apoio do sumo sacerdote, soldados ao seu lado, e os recursos necessários para “cumprir” sua missão. Ele acreditava estar fazendo a vontade de Deus, mas na verdade estava completamente equivocado. Saulo se via como um representante legítimo do Deus de Israel, um tipo de “missionário” enviado por líderes religiosos. Estava tão certo de si, que ignorava a direção real do Espírito. A Palavra diz:

“E Saulo, respirando ainda ameaças e mortes contra os discípulos do Senhor, dirigiu-se ao sumo sacerdote e pediu-lhe cartas para Damasco…” (Atos 9:1-2)

Olhando para esse quadro, fico triste em pensar quantos hoje têm cartas nas mãos, apoio institucional e estrutura, mas seguem caminhos que apenas satisfazem os desejos humanos. Agem sob ordens eclesiásticas, mas longe da direção do Espírito Santo. Vivem a fé como um projeto humano, não como resposta ao chamado divino. Jesus foi claro ao dizer:

“Pelos seus frutos os conhecereis” (Mateus 7:20).

O fim daquela jornada foi marcante: Saulo entrou em Damasco cego e humilhado, e saiu dali dentro de um cesto (Atos 9:25). Perdeu tudo — apoio, autoridade, recursos — mas saiu com algo que nunca tivera antes: uma verdadeira missão dada por Deus.

Deus sabe mudar o rumo da missão. Ele fez isso com Saulo e também com o profeta Elias. Elias, após ser ameaçado por Jezabel, fugiu para o deserto, onde pediu a morte (1 Reis 19:4). O mesmo homem que enfrentou os profetas de Baal agora se escondia, desanimado. Mas Deus, em sua graça, enviou um anjo que lhe trouxe pão e água, e com a força daquela comida, Elias caminhou quarenta dias até encontrar o Senhor novamente na caverna (1 Reis 19:5-9). Diferente de Saulo, Elias precisava ser restaurado. E Deus o restaurou.

São esses encontros que mudam trajetórias, reacendem a fé e nos realinham com os céus.

Lembro-me de quando chegamos à Bolívia e enfrentamos a necessidade de pagar 1.500 dólares pelos vistos. Não tínhamos ninguém por nós, nenhum contato ou apoio, e um dia antes eu contava moedas para comprar pão e leite. Como pagar 1.500 dólares?

Na madrugada, fui para a sala e comecei a orar. Durante aquele momento, cada palavra que Deus havia liberado sobre nossa vinda à Bolívia começou a vir ao meu coração. Então ouvi:

“Repreende a escassez.”
Comecei a declarar em oração que a provisão já havia sido enviada. Isso não tem a ver com pensamento positivo, nem com fórmulas humanas. Eu apenas obedeci à direção do Espírito. A paz veio ao meu coração e fui dormir.

Sem que ninguém soubesse da nossa situação, nos dias seguintes começaram a chegar ofertas de vários lados. Em pouco tempo, tínhamos o valor exato. Foi o próprio Deus provendo.

“O Senhor é o meu pastor, nada me faltará” (Salmo 23:1).

Muitos de nós nos acostumamos com os padrões de nossas congregações, com os canais tradicionais de ouvir a voz de Deus. Mas no campo missionário, vivemos realidades novas. Às vezes Deus usa caminhos tão diferentes que ficamos assustados — mas ainda é Deus falando.

Veja o caso de Balaão. O profeta aceitou uma missão com motivações financeiras. Quem o enviava não tinha compromisso com Deus, e ele mesmo estava longe da vontade divina. Mas Deus, em sua misericórdia, falou com ele de forma surpreendente:

“E a jumenta disse a Balaão: […] acaso tem sido o meu costume fazer assim contigo?” (Números 22:30)
“Então o Senhor abriu os olhos a Balaão, e ele viu o anjo do Senhor…” (Números 22:31)

Profetas estão acostumados a falar, mas aqui foi a jumenta que falou. Balaão dialoga com ela como se fosse algo normal. Seu coração estava dominado pela avareza. O fim de Balaão foi a morte (Números 31:8), pois rejeitou a correção divina.

Deus não negocia seus planos. Ele tem propósitos para nossas vidas, e eles devem ser cumpridos. Ou vivemos os planos de Deus, mesmo que isso exija mudar completamente nossos próprios caminhos, ou corremos o risco de sermos deixados de lado.

“Muitos propósitos há no coração do homem, mas o conselho do Senhor permanecerá” (Provérbios 19:21).

Não há perda em fazer a vontade de Deus. O Senhor é o dono da obra missionária, e Ele tem poder para sustentar, corrigir, e redirecionar. Que Ele continue moldando nossos passos, mesmo quando for necessário começar do zero.

Peniel N Dourado

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